A vida seria bem mais cômoda se pudéssemos matar as lembranças para amenizar a dor que se sente quando perdemos um grande amor e encerramos uma grande história. Seria como se a nuvem negra que nos derrama chuvas ácidas se desfizesse em pequenos pedaços de algodão. A pessoa - junto com os momentos, choros, sorrisos, problemas, intimidade e dependência - sumiria da sua mente, do seu coração e do seu passado nostálgico. A lógica seria coerente: quem em sã consciência negaria uma solução para todas as cicatrizes dolorosas? Bem, eu negaria. Pode me chamar de louca, pirada ou seja lá o que for, mas repito: eu prefiro viver até o fim dos meus dias com uma cicatriz interna à não me lembrar da coisa que mais me fez crescer, no caso, a dor. É preferível sentir qualquer coisa do que, simplesmente, a apatia e o vazio. Não sentir nada deve ser a coisa mais angustiante e dolorosa que eu não sei como é, nem pretendo saber. Eu, pelo contrário, já senti de tudo: amor, carinho, admiração, medo, tristeza, agonia, tensão, raiva, desgosto, vontade de morrer. Turbilhões de pensamentos, emoções e sentimentos já habitaram o meu corpo de diferentes formas. Mas uma coisa todos eles têm em comum: nenhum deixou de valer a pena, por melhor ou pior que fossem. Eles me levaram ao que sou hoje e, de todo o meu coração, eu tenho um orgulho absurdo de quem me tornei. Depois de todas as quedas, as falhas, as decepções, as dores e as angustias, eu estou aqui. Inteira. Em pé. E se eu pudesse ter apagado tudo da minha memória? E se todas as vezes em que chorei escondida no meu quarto, que me senti inferior e que pensei em desistir de mim sumissem do meu pensamento? Certamente eu não teria chegado onde cheguei, tampouco teria histórias e experiências pra compartilhar. É nessas horas que percebo que, por mais que doa, as memórias que tenho também compõem o que me forma. Sofrer não é nenhuma doença, mas sim um aviso de que você ainda se encontra vivo. Aprendi isso vivendo.
— Capitule.
be free
Newton estava errado. Nem tudo que vai , volta .